Não consigo precisar quem foram todas as minhas pessoas especiais que tive em todos os anos letivos que passei por escolas. Sei apenas que, a determinada altura do meu percurso, me apercebi de um padrão que se vinha a repetir há algum tempo.
Voltei atrás na memória e fui capaz de recordar algumas dessas pessoas que no momento não fui capaz de entender que tinham sido importantes para mim naquele ano. Não sei se as pessoas tiveram consciência do papel que ocuparam na minha vida, na verdade eu nunca lhes contei, e desconheço totalmente se o sentimento foi recíproco. E é a primeira vez que estou a falar disto.
A pessoa especial é alguém com quem trabalhei muito de perto num ano. Ora era um professor coadjuvante que ia à minha aula, o secretário da minha direção de turma ou a psicóloga que acompanhava os meus alunos. Sem escolher, sem sequer desconfiar de início, essa pessoa acabava por se tornar no meu colega mais próximo. Construía-se uma parceria, uma cumplicidade feita de trabalho, de conversas, de entreajuda e, muitas vezes, de amizade. Não significava que a relação se mantivesse assim nos anos seguintes. Eram, simplesmente, a pessoa especial daquele ano. É curioso como cada ano parece reclamar uma pessoa diferente, como se cada etapa precisasse da sua própria companhia. E essa pessoa acabava por ser aquela com quem falava mais, aquela com quem desabafava, com quem partilhava projetos.
Às vezes olho para trás, muito para trás, de quando faltava muito para perceber esse padrão, e alguns nomes surgem, repletos de dúvidas, de possíveis pessoas especiais. Mas, desde que percebi o padrão recordo-me de todos. Não vou dizer aqui nomes, não tenho autorização, alguns deles nunca mais voltei a ver, não voltei a falar com eles, já se meteu uma pandemia pelo meio, mudanças de escola. Outros continuam a acompanhar-me, reencontro-os, mas não voltaram a desempenhar o mesmo papel. E sobretudo: eu nunca disse a nenhum deles quão especial foi para mim.
Houve homens e mulheres, nem todos foram professores, perdi alguns no caminho, para um mal entendido ou até mesmo para as amarguras da vida. Nunca repeti nenhum. E quando estou a pensar: este ano não vou ter pessoa especial, eis que descubro quem é.
Talvez esteja na hora de chegar à pessoa especial deste ano e dizer-lhe porque ela foi especial para mim este ano.


Sempre a tempo, desse gesto de reconhecimento. Estou completamente à vontade, para a incentivar, porque sei que não fui eu.