Podemos começar com a pergunta habitual para quem publica um novo livro: como surgiu este livro? A verdade é que este livro foi surgindo aos poucos, poema atrás de poema, uma construção lenta que levou mais de uma dezena de anos, no que diz respeito ao grosso principal do livro, apesar de haver alguns poemas ainda mais antigos.
Tenho de começar pelo princípio. Desde que comecei a escrever que a prosa e a poesia me acompanham em paralelo. Tenho um primeiro livro de poesia, de poemas soltos, escritos na juventude, que nunca tiveram aceitação onde quer que os enviasse. Estão num ficheiro de computador, o verdadeiro formato da “gaveta” e estão aí muito bem. A determinada altura da minha vida pensei: só posso fazer duas coisas pela minha poesia. Ou trabalho-a melhor ou desisto. Na altura eu já era estudante de literatura, e estava, portanto, com muitas leituras do cânone realizadas, mas precisava de procurar mais, de ler mais. Tive de ter olhos e ouvidos atentos para diversificar as minhas leituras e ir apreendendo novas vozes. Confesso que ainda não formei o meu cânone, mas alguma coisa devo ter melhorado, porque a determinada altura as coisas começaram a mudar. É desta fase o poema “mtDNA Haplougroup H1”:
Estás aqui desde sempre.
Aguentaste as agruras da era glaciar,
caçaste grandes animais
e fizeste uma peregrinação para ver o mar,
mais longe naquela altura.
…
O outro ponto de viragem foi a maternidade, que é um dos temas mais visitados em “Fermentação”. Este meu livro é um conjunto de poemas escritos nos últimos anos, não versam sobre um tema apenas, e apesar de a maternidade e o feminino serem dos temas principais, podemos encontrar poemas sobre a própria poesia ou sobre a condição humana. Mas foi desde que fui mãe que estes temas se tornaram mais recorrentes. E foi depois na altura do Covid, em que a Gabriela Ruivo estava a trabalhar nos Mapas do Confinamento, que ela me pediu uns poemas para uma revista literária brasileira, a Capitolina, e que eu, encantada da vida e sem saber onde me meter porque já era o segundo convite da Gabriela Ruivo (que conheci num encontro literário Escritos & Escritores, em Avis), que enviei uns poemas sobre a maternidade que tiveram muito boa aceitação. E eu pensei, se calhar é por aqui.
Meu filho, minha meditação
No silêncio e no escuro
sinto o corpo teu e respiro calma.
Sinto o teu peso nos braços
e esqueço que há passado e futuro.
…
A partir daí entrei em velocidade cruzeiro, a fazer 20 a 30 poemas por ano, na sua maioria sempre sobre a mulher, a maternidade, o feminino, o sagrado feminino, a natureza, o ambiente… Nem todos os poemas que escrevi foram incluídos no livro, há sempre aqueles que não ficaram bem conseguidos.
Um dos pontos altos deste processo foi quando no 1º Concurso de Poesia de Alcoutim, em 2024, um concurso fronteiriço que aceitava poemas de autores de diferentes línguas e nacionalidades, e no qual ganhei uma Menção Honrosa para os poemas de língua portuguesa com o poema “O grito da terra”:
…
Nas grutas mais profundas,
nas montanhas mais altas,
debaixo das árvores mais velhas
e nos ribeiros mais rápidos
o grito ecoava.
…
Espero que tenha conseguido dar-vos um cheirinho do meu livro e que tenha suscitado a curiosidade pela leitura dos meus poemas. Também do vosso lado gostaria de “ouvir” alguma coisa, indicações de leitura, o que sentem sobre estes temas, e tudo o mais que queiram partilhar.

